Entre smart cities e intelligent communities: os aprendizados de Curitiba para o futuro urbano
- Giovani Bernardo
- há 3 dias
- 4 min de leitura

Durante alguns dias, Curitiba concentrou uma série de discussões relevantes sobre o futuro das cidades.
De um lado, temas como tecnologia, sustentabilidade, inovação e experiência urbana dominaram os debates. De outro, o anúncio do Smart21, do Intelligent Community Forum (ICF), trouxe um recorte mais objetivo: quais cidades, de fato, estão conseguindo transformar esses conceitos em resultado.
Mas, para além da agenda e dos conteúdos apresentados, o que mais chama atenção é um movimento mais profundo e menos explícito: As cidades estão deixando de discutir tecnologia como protagonista e começando a discutir como organizar sistemas complexos para gerar resultado. E é exatamente nesse ponto que a conversa muda de nível.
Quando a pauta deixa de ser tecnologia (e passa a ser execução)
Os temas debatidos ao longo da semana reforçam uma tendência clara: a tecnologia já não é mais a principal barreira.
Inteligência artificial, plataformas digitais, conectividade, sensores e sistemas integrados estão cada vez mais acessíveis. O debate, portanto, evoluiu.
O foco agora está em como essas ferramentas são utilizadas para resolver problemas reais e, principalmente, em como diferentes atores se organizam para que isso aconteça. Nesse contexto, três movimentos se destacam.
Governança como infraestrutura invisível
Um dos elementos mais recorrentes nas discussões foi o uso de dados para tomada de decisão e a necessidade de maior integração entre instituições.
Mas o ponto central não está na tecnologia em si.
Está na capacidade de:
alinhar prioridades
coordenar diferentes atores
sustentar iniciativas ao longo do tempo A tecnologia já permite muito.
O que ainda limita as cidades é a ausência de estruturas de governança capazes de transformar potencial em execução. Esse é um ponto crítico. Porque, sem governança, a inovação tende a ficar fragmentada, dependente de iniciativas isoladas e com baixa capacidade de escala.
Ecossistemas e hubs como motores reais de inovação

Outro aspecto evidente é o papel crescente dos ecossistemas de inovação.
A lógica de desenvolvimento urbano baseada apenas na atuação do poder público já não se sustenta. A inovação acontece em rede.
Ambientes de inovação, hubs, programas de fomento e conexões entre startups, empresas e governo aparecem como elementos centrais para a geração de soluções.
Mais do que isso: A capacidade de um território inovar está diretamente relacionada à sua habilidade de articular esses atores de forma consistente. Não se trata apenas de ter iniciativas. Trata-se de construir um sistema que funcione.
Cidades como plataformas (e não apenas estruturas)
Outro movimento relevante é a evolução da cidade como interface. A digitalização dos serviços públicos e a integração de soluções apontam para um novo modelo: a cidade como plataforma.
Isso muda a lógica de atuação. A cidade deixa de ser apenas um espaço físico e passa a ser também uma experiência estruturada, com serviços, jornadas e interações cada vez mais organizadas.
Nesse cenário, a gestão urbana passa a exigir competências que vão além da administração pública tradicional. Exige visão sistêmica, integração e capacidade de execução.
Uma mudança de maturidade
O que se observa não é uma ruptura tecnológica. É uma evolução de maturidade.
A tecnologia já está disponível. Os modelos já são conhecidos. Os exemplos já existem. O diferencial agora está na capacidade de organizar, priorizar e executar.
Do discurso à prática: o que o Smart21 revela sobre as cidades que estão avançando
Se os debates apontam tendências, o Smart21 apresenta evidências. A lista anual do Intelligent Community Forum reúne as 21 comunidades mais inteligentes do mundo, com base em critérios como conectividade, capital humano, inovação, inclusão digital e governança. Mas o que diferencia o Smart21 de outros rankings é o seu foco. Ele não mede quem tem mais tecnologia. Mede quem consegue transformar tecnologia em desenvolvimento
O protagonismo das cidades brasileiras
A presença de cidades brasileiras na lista, como Assaí, Ponta Grossa e Maringá, reforça um ponto importante: O avanço não está restrito às grandes capitais. Pelo contrário.
Cidades médias, quando bem organizadas, têm demonstrado uma capacidade relevante de estruturar ecossistemas, integrar atores e gerar impacto.
Smart city vs. intelligent community
Uma das reflexões mais marcantes desse contexto é a diferença entre os conceitos de smart city e intelligent community. Durante anos, a ideia de cidade inteligente esteve associada à tecnologia: sensores, conectividade, plataformas digitais.
Mas o conceito de intelligent community amplia essa visão. Não se trata apenas de infraestrutura tecnológica. Trata-se de como essa infraestrutura é utilizada para melhorar a vida das pessoas, gerar oportunidades e fortalecer o desenvolvimento local. Em outras palavras: Uma smart city tem no seu centro a tecnologia. Uma intelligent community tem no seu centro as pessoas.
E, entre esses dois conceitos, existe um elemento que faz a diferença: governança.
O papel do ICF e a atuação da Exxas
A atuação do Intelligent Community Forum tem sido fundamental para estruturar esse debate em nível global. Ao estabelecer critérios claros e reconhecer boas práticas, o ICF contribui para elevar o nível de maturidade das cidades e orientar suas estratégias de desenvolvimento.
Nesse contexto, a parceria da Exxas com o ICF no Brasil tem um papel importante. Mais do que acompanhar essa agenda, buscamos contribuir ativamente com a sua implementação, apoiando cidades e ecossistemas na estruturação de modelos de governança, na articulação de atores e na construção de estratégias consistentes de inovação. Para nós, essa não é uma discussão teórica. É uma agenda prática.
O desafio que fica
Se existe uma mensagem clara a partir de tudo isso, é simples: O mundo não está mais discutindo se as cidades devem inovar. Está discutindo como fazer isso funcionar. E, nesse novo cenário, o diferencial não está na tecnologia.
Está na capacidade de:
coordenar atores
estruturar governança
transformar estratégia em execução
As cidades mais inteligentes do mundo não são as mais digitais. São as que aprenderam a trabalhar como sistemas. E esse é, talvez, o principal desafio, e oportunidade, para o Brasil nos próximos anos.




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