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Seis conversas sobre inovação e o que elas têm em comum

há 10 minutos
6 min de leitura

O Podcast da Exxas nasceu com uma proposta simples: ouvir quem faz a inovação acontecer na prática. Não apenas especialistas que observam o tema de fora, mas pessoas que lidam todos os dias com decisões, restrições, equipes, orçamentos e resultados.


Em seis episódios, passaram pelo estúdio lideranças de mundos bem diferentes. Gestão pública municipal, indústria da construção, tecnologia, ecossistemas de inovação e consultoria corporativa. Cada conversa partiu de um contexto próprio, com desafios e linguagens próprias.


Ao revisitar esses episódios, um padrão chamou a atenção. Por caminhos distintos, os convidados chegaram a conclusões muito parecidas sobre o que faz a inovação sair do discurso e virar resultado. Este artigo reúne essas conclusões.


Trajetórias diferentes, a mesma constatação


Nenhum dos convidados disse que falta criatividade. Ideias, projetos e boas intenções aparecem em todos os contextos que eles descreveram, no setor público e no privado.


O que se repetiu foi outra coisa: a dificuldade de sustentar a inovação ao longo do tempo. Transformar uma boa ideia em processo, dar segurança a quem decide, proteger espaço para o futuro e reunir as pessoas certas em torno do mesmo problema.


A seguir, os seis insights que mais apareceram nessas conversas, com os exemplos que os sustentam.


1. Inovação não é falta de ideia. É falta de sistema


Steven Rumsey, especialista em inovação com longa trajetória de liderança em grandes empresas, foi direto: na maioria das vezes, o que trava a inovação não é a ausência de boas ideias. É a ausência de um sistema que as transforme em execução, com foco, priorização, cadência e métricas.


A história de Ricardo Mateus, fundador e CEO da Brasil ao Cubo, ilustra isso no chão de fábrica. A proposta de tratar a construção civil com lógica industrial só ganhou escala quando virou um modelo replicável, com processo e linha de montagem. Ricardo também chamou atenção para o timing: a empresa passou anos testando, errando e melhorando antes de o mercado discutir com força a industrialização do setor.


No episódio de estreia, os sócios da Exxas chegaram ao mesmo ponto por outro caminho. Para Giovani Bernardo, resultado não nasce do improviso: é consequência de padrões, processos e direção. A ideia é o começo; o arranjo que conecta decisão e execução é o que a sustenta.


2. Antes da solução, a escuta

Muita gente ainda espera a inovação como um "momento eureka". Isadora Piazza, sócia da Exxas, propôs outra leitura no primeiro episódio: na prática, ela quase sempre nasce de um processo. Escutar de verdade, entender a dor de quem vive o problema, exercitar empatia e só então desenhar uma solução que faça sentido para quem recebe e para o negócio.


Steven Rumsey complementou esse olhar com duas leituras. A externa, para entender o que está mudando no mercado, onde estão os riscos e as oportunidades. E a interna, para reconhecer as competências e os ativos que a organização já tem, mas talvez ainda não explore como poderia.


Um ponto chamou atenção na fala dele: muitas empresas gastam energia tentando resolver todas as fraquezas e esquecem de perguntar quais fortalezas podem virar vantagem competitiva. Com uma ressalva importante: força sem adaptação ao contexto pode virar miopia.


3. Uma dor pode virar estratégia

Juliano Richter Pires, secretário de Turismo, Desenvolvimento Econômico e Inovação de Florianópolis, contou que a história da inovação na capital catarinense não nasceu apenas de uma vocação natural. Nasceu de uma necessidade.


A cidade tinha qualidade de vida, universidades fortes e talentos sendo formados. Mas muitos desses profissionais não encontravam onde trabalhar e iam embora. Essa limitação provocou uma escolha estratégica: criar condições para que conhecimento, tecnologia e talento permanecessem no território.


Dessa articulação entre universidade, governo, instituições e lideranças surgiram movimentos que marcaram o ecossistema, como a Fundação CERTI e a incubadora CELTA. Para Juliano, a lição continua atual: uma cidade que cria oportunidades para os jovens permanecerem, empreenderem e construírem futuro também está cuidando do próprio futuro.


4. Governança é segurança para agir

Governança costuma ser associada a burocracia. Nas conversas, apareceu como o oposto: aquilo que dá confiança para inovar e permite que a inovação continue acontecendo.


Gabriela Werner, sócia-fundadora do Impact Hub Florianópolis, trouxe esse ponto a partir do setor público. Ali, o servidor só pode fazer o que a lei permite, o que protege o sistema, mas o expõe a riscos sempre que sai do convencional. Na leitura dela, a legislação brasileira avançou muito e hoje permite comprar inovação com segurança, desde que os ritos sejam cumpridos. E, mesmo quando a inovação não dá certo, quem seguiu as etapas corretamente está resguardado.


Por isso, um dos pilares do Estação Pública, iniciativa idealizada pela Exxas, pela 8R Negócios e pelo Impact Hub Florianópolis, é justamente cultural: aproximar o servidor dos marcos legais que já existem e dos que estão chegando. Juliano Richter Pires reforçou a mesma ideia ao falar de Florianópolis, onde o Conselho Municipal de Ciência, Tecnologia e Inovação e a Lei Municipal de Inovação ajudaram a estruturar um arcabouço para o ecossistema da cidade.


5. O futuro não cabe no tempo que sobra

Se depender do tempo livre, a inovação não acontece, porque o operacional sempre vai consumir tudo. Para Steven Rumsey, esse talvez seja o primeiro ponto que as lideranças precisam admitir. A empresa precisa cuidar da máquina que gera resultado hoje, mas também da máquina que constrói o amanhã. Sem espaço, energia e compromisso real com o futuro, a inovação vira discurso.


Luis Eduardo, sócio da Exxas, olhou para o mesmo dilema pela tecnologia. A inteligência artificial já resolve muitas tarefas de forma simples, rápida e eficiente. Quando o básico deixa de consumir o time, sobra mais espaço para o que realmente importa: pensar melhor, decidir melhor e gerar mais valor.


O mesmo raciocínio aparece na escala de uma cidade. Ao falar dos jovens, Juliano Richter Pires lembrou que investir no futuro não é escolher um público em detrimento de outro. Uma cidade boa para quem está começando tende a ser também mais viva, dinâmica e preparada para toda a sociedade.


6. Ninguém inova sozinho

O último insight atravessou praticamente todas as conversas. Inovar no setor público, explicou Gabriela Werner, não é apenas criar novas ideias. É conectar quem vive os problemas, quem pode desenvolver soluções e quem tem capacidade de transformá-las em impacto para a sociedade. O Estação Pública foi pensado como esse espaço: uma sala de reuniões com paredes de vidro, onde conversar com o poder público sobre projetos e tecnologias deixa de ser estranho.


Diego Brites Ramos, CEO da Teltec Solutions e presidente da ACATE, trouxe o mesmo espírito a partir dos empreendedores de tecnologia de Santa Catarina. Na conversa, ele falou de iniciativas criadas coletivamente pelo setor para apoiar quem está chegando, uma cultura em que crescer junto fortalece o ecossistema inteiro.


E a história de Florianópolis contada por Juliano Richter Pires reforça o ponto: os movimentos que deram origem ao ecossistema surgiram da articulação entre universidade, governo, instituições e lideranças. A decisão de inovar nasce dentro de cada organização. A capacidade de fazê-la acontecer se constrói em rede.


O que conecta essas conclusões


Lidos em conjunto, os seis insights descrevem a mesma necessidade a partir de ângulos diferentes. Ideias, talentos, leis, tecnologias e iniciativas já existem. O que define se eles geram resultado é a qualidade das relações entre esses ativos e a existência de arranjos capazes de sustentá-las no tempo.


É essa a leitura que orienta o trabalho da Exxas: governança é o elo entre sistema e ecossistema. Não substitui liderança, cultura, capital, talento ou conexões. Conecta esses fatores, dando direção, segurança para decidir e continuidade para que o que começou bem não dependa apenas de entusiasmo ou de pessoas específicas.


Os convidados, cada um no seu contexto, mostraram isso na prática. Em todos os casos, o protagonismo foi de quem estava no território, na empresa ou na instituição. A estrutura veio para fazer esse protagonismo durar.


Seis perguntas para levar para a sua realidade


Seja numa prefeitura, numa indústria ou num ecossistema, os insights podem virar um exercício simples de reflexão:


  1. Sistema: quando uma boa ideia surge, existe um caminho claro para que ela seja priorizada, tenha responsável e seja acompanhada?

  2. Escuta: as soluções nascem da dor de quem vive o problema ou do que já se queria propor?

  3. Estratégia: qual restrição atual poderia se tornar o ponto de partida de uma escolha estratégica?

  4. Segurança: quem decide sobre inovação sabe quais regras, ritos e critérios o protegem?

  5. Futuro: quanto do tempo e da energia da equipe está reservado para o que vem depois, e não apenas para a operação de hoje?

  6. Rede: as pessoas que vivem o problema, criam a solução e tomam a decisão estão, de fato, na mesma mesa?


A conversa continua

Se os seis primeiros episódios mostraram o que faz a inovação acontecer, o próximo passo é entender o que a faz durar. No episódio 7, o Podcast da Exxas recebe Rodrigo Bonfanti Campos e Diego Brusemeister, de Itajaí, para falar de continuidade: como um ecossistema de inovação atravessa mudanças de gestão e segue avançando.


Os seis episódios completos estão disponíveis no YouTube e no Spotify. Vale ouvir cada conversa por inteiro: os insights reunidos aqui são apenas uma parte do que os convidados compartilharam.

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