Por que precisamos evoluir o debate sobre Ecossistemas de Inovação no Brasil: um olhar sistêmico para o futuro dos territórios
- Giovani Bernardo
- 18 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 12 de jan.

Nos últimos anos, o termo “ecossistema de inovação” se tornou parte do vocabulário de gestores públicos, lideranças empresariais e profissionais que lidam com transformação econômica nos municípios brasileiros. O conceito ganhou força, mobilizou comunidades, aproximou atores e ajudou a criar um novo olhar sobre desenvolvimento.
Mas há um movimento global, silencioso, profundo e cada vez mais evidente, que nos convida a dar um passo além: entender inovação territorial não apenas como um ecossistema, mas como um sistema.
Este artigo inaugura essa discussão.
Ele serve como preâmbulo para o próximo conteúdo, onde apresentaremos a distinção conceitual e prática entre Sistema de Inovação e Ecossistema de Inovação, e por que essa diferença muda a forma como pensamos política pública, governança, desenvolvimento territorial e estratégias de longo prazo.
Antes disso, é preciso colocar os fundamentos na mesa
O ponto de partida: pensar cidades como sistemas vivos
A base para entender inovação territorial está na Teoria Geral dos Sistemas (TGS), formulada por Ludwig von Bertalanffy nos anos 1950. Segundo a TGS, tudo aquilo que funciona como um conjunto organizado (cidades, organizações, economias, redes) deve ser entendido como um sistema, e não como partes isoladas.
A TGS introduz conceitos que mudaram a forma como entendemos complexidade:
Interdependência: mudanças em uma parte afetam o todo.
Feedback: o sistema aprende e se adapta constantemente.
Equilíbrio dinâmico: estabilidade não é rigidez, mas movimento coordenado.
Emergência: certos resultados só aparecem quando o todo funciona junto.
Quando aplicamos isso ao desenvolvimento territorial, a conclusão é clara: nenhuma prefeitura, universidade, empresa, startup ou hub explica o desempenho de um território de forma isolada.
O que importa é a interação entre eles.
É nesse ponto que surge o conceito de ecossistema.
O valor imenso do conceito de Ecossistema de Inovação
Nos anos 2000, autores como Daniel Isenberg e uma série de iniciativas internacionais popularizaram a metáfora de “ecossistema” para falar de inovação. A imagem caiu como uma luva: ecossistemas são espaços vivos, feitos de relações, cultura, trocas, diversidade e colaboração espontânea.
Foi esse conceito que permitiu:
criar hubs e comunidades;
aproximar múltiplas hélices;
fortalecer a cultura empreendedora;
reduzir distâncias entre governo, academia e empresas;
entender que inovação depende de um ambiente propício, e não de decretos isolados.
O ecossistema trouxe vida à discussão, e nós não perderemos isso. No entanto, ele não explica tudo. A prática mostra que, mesmo com bons ecossistemas, muitos territórios:
não criam continuidade;
não escalam seus resultados;
não institucionalizam suas conquistas;
dependem de pessoas específicas;
sofrem com a descontinuidade política;
perdem força quando há troca de gestão.
Por quê?
Porque falta a outra metade da equação: o sistema.
O que a literatura internacional nos diz há décadas: existe um Sistema de Inovação
Muito antes de falarmos em ecossistemas, economistas como Lundvall e Nelson, e organismos como a OECD e a União Europeia, criaram um conceito estruturante: o Sistema de Inovação.
Segundo essa literatura, inovação depende de:
instituições fortes;
políticas consistentes;
instrumentos de fomento;
infraestrutura científica e tecnológica;
mecanismos formais de governança;
arranjos que ofereçam continuidade no longo prazo.
Essa é a arquitetura que sustenta a capacidade inovadora de um território.
A Estratégia Nacional de CT&I (ENCTI) brasileira chama isso de Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. A OECD reforça que inovação é influenciada tanto por capacidades internas quanto por fatores sistêmicos.
Ou seja:
Enquanto o ecossistema descreve a vida, o sistema descreve a estrutura que torna essa vida possível e sustentável.
Então qual é a diferença, e o que une os dois?

A diferença entre Sistema de Inovação e Ecossistema de Inovação muitas vezes é tratada como uma disputa de conceitos, quando, na verdade, um depende do outro. De forma simples, o Sistema de Inovação corresponde à arquitetura institucional que sustenta o desenvolvimento: leis, políticas, instituições, instrumentos, infraestrutura e modelos de governança. Já o Ecossistema de Inovação representa a dinâmica social que acontece em cima dessa base: as pessoas, as redes, a cultura, a colaboração, os eventos e os comportamentos que fazem a inovação circular.
Essas duas dimensões não são concorrentes, são profundamente complementares. O ecossistema gera movimento, energia, criatividade e conexão. O sistema garante continuidade, estabilidade, direção e capacidade de escala. E é justamente na intersecção entre ambos que se encontra o elemento que costura tudo isso: a governança.
A governança é o mecanismo que traduz a intenção política em ação colaborativa; a infraestrutura em uso real; os instrumentos em oportunidades concretas; a estratégia em resultados; e, em última instância, transforma sistema em ecossistema, e ecossistema em sistema.
Por que esse tema importa, e por que estamos falando disso agora
Porque o Brasil está entrando em uma fase decisiva.
Governos municipais e estaduais querem:
criar políticas de inovação mais eficazes;
estruturar programas mais duradouros;
reduzir dependência de projetos isolados;
atrair investimentos;
profissionalizar a governança dos seus ecossistemas.
Hubs e parques querem:
gerar impacto real;
ter portfólios sustentáveis;
conectar-se a redes globais.
Empresas querem:
participar mais ativamente;
acessar talentos e tecnologia.
E todos querem:
Um caminho => Uma lógica => Um modelo que funcione.
É isso que apresentaremos no próximo artigo:
o modelo completo que une Sistema + Ecossistema + Governança,
e o que isso significa para municípios, estados e organizações que querem liderar seu desenvolvimento.
Este artigo é o primeiro passo dessa jornada.




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