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Por que precisamos evoluir o debate sobre Ecossistemas de Inovação no Brasil: um olhar sistêmico para o futuro dos territórios

Atualizado: 12 de jan.

crédito: wenhung yang
crédito: wenhung yang

Nos últimos anos, o termo “ecossistema de inovação” se tornou parte do vocabulário de gestores públicos, lideranças empresariais e profissionais que lidam com transformação econômica nos municípios brasileiros. O conceito ganhou força, mobilizou comunidades, aproximou atores e ajudou a criar um novo olhar sobre desenvolvimento.


Mas há um movimento global, silencioso, profundo e cada vez mais evidente, que nos convida a dar um passo além: entender inovação territorial não apenas como um ecossistema, mas como um sistema.


Este artigo inaugura essa discussão.


Ele serve como preâmbulo para o próximo conteúdo, onde apresentaremos a distinção conceitual e prática entre Sistema de Inovação e Ecossistema de Inovação, e por que essa diferença muda a forma como pensamos política pública, governança, desenvolvimento territorial e estratégias de longo prazo.


Antes disso, é preciso colocar os fundamentos na mesa


O ponto de partida: pensar cidades como sistemas vivos


A base para entender inovação territorial está na Teoria Geral dos Sistemas (TGS), formulada por Ludwig von Bertalanffy nos anos 1950. Segundo a TGS, tudo aquilo que funciona como um conjunto organizado (cidades, organizações, economias, redes) deve ser entendido como um sistema, e não como partes isoladas.


A TGS introduz conceitos que mudaram a forma como entendemos complexidade:


  • Interdependência: mudanças em uma parte afetam o todo.

  • Feedback: o sistema aprende e se adapta constantemente.

  • Equilíbrio dinâmico: estabilidade não é rigidez, mas movimento coordenado.

  • Emergência: certos resultados só aparecem quando o todo funciona junto.


Quando aplicamos isso ao desenvolvimento territorial, a conclusão é clara: nenhuma prefeitura, universidade, empresa, startup ou hub explica o desempenho de um território de forma isolada.


O que importa é a interação entre eles.


É nesse ponto que surge o conceito de ecossistema.


O valor imenso do conceito de Ecossistema de Inovação


Nos anos 2000, autores como Daniel Isenberg e uma série de iniciativas internacionais popularizaram a metáfora de “ecossistema” para falar de inovação. A imagem caiu como uma luva: ecossistemas são espaços vivos, feitos de relações, cultura, trocas, diversidade e colaboração espontânea.

Foi esse conceito que permitiu:


  • criar hubs e comunidades;

  • aproximar múltiplas hélices;

  • fortalecer a cultura empreendedora;

  • reduzir distâncias entre governo, academia e empresas;

  • entender que inovação depende de um ambiente propício, e não de decretos isolados.


O ecossistema trouxe vida à discussão, e nós não perderemos isso. No entanto, ele não explica tudo. A prática mostra que, mesmo com bons ecossistemas, muitos territórios:


  • não criam continuidade;

  • não escalam seus resultados;

  • não institucionalizam suas conquistas;

  • dependem de pessoas específicas;

  • sofrem com a descontinuidade política;

  • perdem força quando há troca de gestão.


Por quê?

Porque falta a outra metade da equação: o sistema.


O que a literatura internacional nos diz há décadas: existe um Sistema de Inovação


Muito antes de falarmos em ecossistemas, economistas como Lundvall e Nelson, e organismos como a OECD e a União Europeia, criaram um conceito estruturante: o Sistema de Inovação.


Segundo essa literatura, inovação depende de:


  • instituições fortes;

  • políticas consistentes;

  • instrumentos de fomento;

  • infraestrutura científica e tecnológica;

  • mecanismos formais de governança;

  • arranjos que ofereçam continuidade no longo prazo.


Essa é a arquitetura que sustenta a capacidade inovadora de um território.


A Estratégia Nacional de CT&I (ENCTI) brasileira chama isso de Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação. A OECD reforça que inovação é influenciada tanto por capacidades internas quanto por fatores sistêmicos.


Ou seja:

Enquanto o ecossistema descreve a vida, o sistema descreve a estrutura que torna essa vida possível e sustentável.


Então qual é a diferença, e o que une os dois?


Sistema x Ecossistema. Fonte: autor
Sistema x Ecossistema. Fonte: autor

A diferença entre Sistema de Inovação e Ecossistema de Inovação muitas vezes é tratada como uma disputa de conceitos, quando, na verdade, um depende do outro. De forma simples, o Sistema de Inovação corresponde à arquitetura institucional que sustenta o desenvolvimento: leis, políticas, instituições, instrumentos, infraestrutura e modelos de governança. Já o Ecossistema de Inovação representa a dinâmica social que acontece em cima dessa base: as pessoas, as redes, a cultura, a colaboração, os eventos e os comportamentos que fazem a inovação circular.


Essas duas dimensões não são concorrentes, são profundamente complementares. O ecossistema gera movimento, energia, criatividade e conexão. O sistema garante continuidade, estabilidade, direção e capacidade de escala. E é justamente na intersecção entre ambos que se encontra o elemento que costura tudo isso: a governança.


A governança é o mecanismo que traduz a intenção política em ação colaborativa; a infraestrutura em uso real; os instrumentos em oportunidades concretas; a estratégia em resultados; e, em última instância, transforma sistema em ecossistema, e ecossistema em sistema.


Por que esse tema importa, e por que estamos falando disso agora


Porque o Brasil está entrando em uma fase decisiva.


Governos municipais e estaduais querem:


  • criar políticas de inovação mais eficazes;

  • estruturar programas mais duradouros;

  • reduzir dependência de projetos isolados;

  • atrair investimentos;

  • profissionalizar a governança dos seus ecossistemas.


Hubs e parques querem:


  • gerar impacto real;

  • ter portfólios sustentáveis;

  • conectar-se a redes globais.


Empresas querem:


  • participar mais ativamente;

  • acessar talentos e tecnologia.


E todos querem:


Um caminho => Uma lógica => Um modelo que funcione.


É isso que apresentaremos no próximo artigo:

o modelo completo que une Sistema + Ecossistema + Governança,

e o que isso significa para municípios, estados e organizações que querem liderar seu desenvolvimento.


Este artigo é o primeiro passo dessa jornada.

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