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O próximo nível dos ecossistemas de inovação exige mais do que conexão: exige foco, capital e governança

Maite Lemos, consultora da Exxas e Luis Eduardo Vieira, COO da Exxas
Maite Lemos, consultora da Exxas e Luis Eduardo Vieira, COO da Exxas

Nos dias 7 e 8 de abril, estivemos em Criciúma participando do ELI Summit SC 2026, edição estadual do Encontro dos Ecossistemas Locais de Inovação de Santa Catarina. Com o tema “Territórios Inteligentes & Competitividade: inovação que impulsiona crescimento econômico e qualidade de vida”, o evento reuniu lideranças, governanças, especialistas e atores de diferentes regiões do estado para discutir o presente e, principalmente, o futuro dos ecossistemas catarinenses.


Mais do que uma agenda de palestras, oficinas, cases, visitas técnicas e conexões, o encontro serviu como um importante espaço de leitura de cenário. E uma percepção ficou muito clara para nós:


O que trouxe muitos ecossistemas de inovação até aqui não será suficiente para levá-los ao próximo nível.


Santa Catarina construiu, ao longo dos últimos anos, uma trajetória relevante. O estado desenvolveu ambientes, ativou governanças, fortaleceu redes, mobilizou lideranças e estimulou a criação de startups e iniciativas empreendedoras. Isso tem valor. Isso foi necessário. Mas agora a régua mudou.


O desafio já não é apenas “ter um ecossistema em movimento”. O desafio é fazer esse ecossistema gerar mais densidade econômica, maior capacidade de atração de investimentos, especialização inteligente e relevância real em um cenário cada vez mais competitivo.



O ciclo da ativação foi importante. Agora começa o ciclo da sofisticação.


Durante muito tempo, boa parte dos ecossistemas brasileiros esteve concentrada em agendas de base: mobilização, conexão entre atores, eventos, formação de comunidade, fortalecimento da cultura empreendedora e apoio às primeiras startups. Esse movimento foi essencial para criar massa crítica e colocar o tema da inovação na agenda dos territórios.


Mas há um limite para o quanto isso, isoladamente, sustenta avanço.


Chega um momento em que o ecossistema precisa responder perguntas mais duras:


  • Qual tese econômica estamos construindo?

  • Em quais setores temos real potencial de diferenciação?

  • Que tipo de empresa queremos ajudar a nascer e crescer aqui?

  • Como aumentamos nossa capacidade de atrair capital?

  • Como conectamos inovação a desenvolvimento territorial de verdade?

  • Como deixamos de ser apenas um ambiente “ativo” para nos tornarmos um ambiente “estrategicamente competitivo”?



É nesse ponto que muitos ecossistemas entram em uma zona de transição. E é justamente aí que a governança passa a ter um papel ainda mais decisivo.


Ecossistemas fortes não tentam abraçar tudo


Outro ponto que se destacou no ELI Summit SC 2026 foi a importância de os ecossistemas desenvolverem focos setoriais.


Esse talvez seja um dos debates mais urgentes para o Brasil.


Muitos territórios ainda tentam se posicionar como ecossistemas “abertos para tudo”. Na prática, isso costuma gerar dispersão. Sem foco, o ecossistema até se movimenta, mas tem mais dificuldade de construir reputação, densidade, diferenciação e capacidade de atração de recursos.


Foco setorial não é limitação. É estratégia.


Quando um ecossistema compreende melhor suas vocações, suas competências instaladas, suas cadeias produtivas, seus ativos científicos, empresariais e institucionais, ele deixa de atuar apenas pela lógica da oferta difusa e passa a construir uma proposta de valor territorial mais clara.


É isso que permite, por exemplo:


  • Atrair investimentos mais aderentes;

  • Direcionar melhor programas e instrumentos;

  • Aproximar grandes empresas e startups em torno de desafios reais;

  • Organizar melhor a atuação da academia;

  • Gerar especialização progressiva;

  • Criar narrativa econômica com mais força.



Na prática, ecossistemas mais maduros são aqueles que conseguem conectar inovação com identidade produtiva e visão de futuro.


Nem todo território precisa escolher um único setor. Mas todo território precisa fazer escolhas mais inteligentes.


Na Exxas, temos defendido há bastante tempo que governança não é um tema acessório nos ecossistemas de inovação. Ela é o que permite transformar boa vontade em direção, conexões em coordenação e iniciativas soltas em avanço estruturado.


Quando olhamos para os debates do ELI Summit, fica ainda mais evidente que os próximos passos dos ecossistemas dependerão menos de entusiasmo e mais de capacidade de organização.


Porque atrair investimento exige intencionalidade.

Porque definir focos setoriais exige pactuação.

Porque elevar a sofisticação das startups exige articulação entre múltiplos atores.

Porque transformar vocações territoriais em estratégia exige método.

Porque competir em um cenário de IA e tecnologias profundas exige prioridade, coordenação e visão de longo prazo.


E nada disso acontece de forma consistente sem governança.


Governança, para nós, não significa burocratizar o ecossistema. Significa dar a ele condições reais de avançar. Significa criar acordos mínimos, papéis claros, mecanismos de decisão, ritos, indicadores, priorização e continuidade.


Ecossistemas frágeis em governança tendem a repetir alguns padrões conhecidos:


  • excesso de agenda e baixa execução;

  • muitas iniciativas desconectadas;

  • protagonismos pulverizados sem coordenação;

  • dificuldade de priorizar;

  • baixa capacidade de acompanhar resultados;

  • dependência excessiva de poucas lideranças;

  • pouca conexão entre ambição territorial e plano de ação concreto.



No curto prazo, isso pode até ser mascarado por movimento. Mas, no médio prazo, cobra seu preço.



O futuro dos ecossistemas será mais exigente


O novo momento dos ecossistemas de inovação não será definido apenas por quem consegue mobilizar mais atores ou realizar mais eventos. Será definido por quem conseguir fazer melhores escolhas estratégicas.


Isso passa por pelo menos quatro movimentos centrais:


1. Sair da lógica genérica de inovação

Ecossistemas precisarão aprofundar sua leitura sobre quais frentes realmente fazem sentido para seu território.


2. Construir especialização inteligente

Não basta ter vocação; é preciso transformá-la em tese, agenda, programas e conexões práticas.


3. Aumentar a capacidade de atração de capital e oportunidades

Isso envolve reputação, densidade, foco, bons ativos e capacidade de articulação.


4. Elevar o nível da governança

Sem um modelo de coordenação mais maduro, a tendência é o ecossistema perder energia em dispersão.



O evento reforça um sinal importante para Santa Catarina


O ELI Summit SC 2026, realizado no CRIO – Centro de Inovação de Criciúma, reforçou uma mensagem que Santa Catarina precisa ouvir com atenção: o estado já demonstrou que sabe ativar ecossistemas. Agora, precisa demonstrar que sabe sofisticá-los.


Esse é um desafio de lideranças, de governanças e de visão territorial.


A próxima etapa pede menos ingenuidade e mais estratégia.

Menos inovação como discurso amplo e mais inovação como vetor concreto de competitividade.

Menos dispersão e mais prioridade.

Menos celebração do movimento pelo movimento e mais compromisso com densidade, diferenciação e resultado.


Na Exxas, seguimos acreditando que o papel da governança é exatamente este: ajudar ecossistemas a amadurecer, fazer escolhas melhores e transformar potencial em direção concreta de desenvolvimento.


Porque, no fim, ecossistemas relevantes não são os que apenas se articulam bem. São os que conseguem se organizar para construir futuro.

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